Gentlemen’s Talks – André Ventura

andré venturaAndré Ventura para além de ser cronista no Gentleman’s Journal, é professor universário,  escritor e comentador televisivo de política e desporto. No meio destas muitas ocupações conseguimos entrevistá-lo sobre vários assuntos, a vida, o amor, a televisão e os seus grandes objectivos.

Gentleman’s Journal (GJ): Prof. André Ventura, vamos começar por si. As origens, a passagem pelo Seminário…teve uma educação particularmente religiosa?

André Ventura (AV): Bom, eu diria que a minha educação não teve uma componente particularmente religiosa, não obstante a minha família poder ser considerada, culturalmente, de matriz católica. Só para ter uma ideia, eu nem sequer fui baptizado no primeiro ano de vida. Baptizei-me aos catorze anos de idade, por iniciativa própria, e tive como padrinhos de baptismo os meus avós paternos, significativamente mais ligados à religião. Foi a partir de aí que começou o meu percurso religioso…

GJ: Com muito fervor? Para ter ido para o Seminário? E já agora, em que Seminário esteve?

AV: Estive no Seminário de Penafirme, perto de Torres Vedras, onde aliás estudei até à entrada na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Mas deixe-me voltar atrás um pouco. Comecei efectivamente a minha vida religiosa com especial fulgor. O dinamismo próprio daqueles que chegam tarde aos eventos e querem abraçar todo o conhecimento possível. Lembro-me que devorava literatura católica, desde Santo Agostinho a Newman. Só para ter ideia, a Igreja do Algueirão, onde tudo começou, tinha uma pequena biblioteca, sobretudo para a catequese. Recordo-me de ficar horas depois dos outros saírem para ler tudo o que estivesse à mão. Assimilar cada conceito, aprender cada passo litúrgico. Tudo. Foi uma época muito intensa.

GJ: Foi aí que decidiu que queria ser Padre?

AV: Bom, vamos com calma. Eu queria fazer o percurso. Quando entramos num universo novo queremos esgotá-lo e absorve-lo. Penso que terei ido para o Seminário mais com esse intuito do que propriamente abraçar a missão do sacerdócio.

GJ: Arrepende-se dessa decisão?

AV: Não, de forma nenhuma. Deixe-me dizer-lhe uma coisa, a passagem pelo Seminário marcou-me definitivamente. E de forma positiva. Tive uma equipa extraordinária de sacerdotes formadores – que apostavam numa dimensão importante de crescimento humano e não apenas escolar – e sobretudo fiz amigos para a vida. De tal forma que nos continuamos a encontrar permanentemente, mesmo muitos anos depois e com vidas muito diferenciadas.

GJ: A ligação à Igreja Católica, mantém-se?

AV: Absolutamente. Foi outro aspecto da herança positiva que recebi do Seminário. Todo o meu percurso humano e académico posterior foi acolhido e acompanhado pelo Igreja. Vivi, enquanto estudante, na Igreja de São Nicolau em Lisboa e a amizade e o carinho continuam a existir por um número incontável de sacerdotes católicos. Olhe, o Pe. Mário Rui, da paróquia de S. Nicolau, mas também o Pe. Manuel Carlos, sacerdote madeirense com quem construi uma amizade extraordinária e cujo falecimento, o ano passado, ainda me custa aceitar…

GJ: O amor e o casamento? Os diversos ofícios não lhe deixam espaço para isso?

AV: Sim…vão deixando, embora não tanto como eu gostaria (risos). Sou um homem de paixões. Apaixonei-me ainda estava no seminário – daí ter percebido que a minha carreira eclesiástica não iria longe (risos). E continuei sempre a apaixonar-me. Conheci pessoas fantásticas com quem fui partilhando a vida. Amei e fui amado. Também deixei e fui deixado. Mas tenho tido a sorte de viver histórias bonitas com mulheres fantásticas. Se ainda não houve casamento é porque não calhou, mas certamente acontecerá…sou um romântico, acredito no amor!

GJ: Por falar em amor, é inevitável concluir-se que o Benfica é um dos seus grandes amores?

AV: Sem dúvida. Toda a minha família é benfiquista. Lembro-me de ser ainda muito criança e o meu avô paterno – um fadista bastante castiço – vibrar a ouvir os jogos do SLB num pequeno rádio cuidadosamente suspenso no braço do sofá, enquanto a minha avó lhe dizia para falar mais baixo. O meu irmão Sérgio também foi contagiado por este espírito e é o que se poderá considerar um ‘doente do Benfica’…

GJ: Não se considera assim? Alguns dos seus comentário televisivos podem ser interpretados…

AV: Como fanatismo futebolístico, eu sei! A paixão pelo clube é grande e, consequentemente, talvez por vezes tenha cometido exageros. Mas sobretudo acho muito importante defender o clube, nas alturas boas e menos boas. Ser capaz de perceber os grandes desafios do tempo e alertar os sócios e os adeptos para eles. Por exemplo, tenho sido muito criticado por defender a gestão de Luis Filipe Vieira, nomeadamente no âmbito da saída considerável de jogadores no final da época passada e na cedência de outros já no decurso deste ano. Eu compreendo que o coração benfiquista sofra sempre que sai um jogador do plantel, sobretudo com o carácter de indispensabilidade que tinham Di Maria ou Enzo Perez. Mas a realidade financeira dos dias de hoje não permite um cenário diferente: os fundos vão terminar muito em breve (por decisão da FIFA), as fontes de financiamento vão ficar reduzidas e as contas têm de se manter equilibradas. Ora, isso apenas pode acontecer com a saída de alguns jogadores e com uma aposta muito forte na formação interna, o que tem sido feito por Luis Filipe Vieira. Goste-se ou não do homem, temos de o reconhecer.

GJ: O que acha que falta fazer no Benfica?

AV: Como diz o meu amigo Rui Gomes da Silva, falta ganhar a Liga dos Campeões (risos). Acho que Luis Filipe Vieira e Jorge Jesus mereciam esse tópicos nas suas carreiras ao serviço do Benfica.

GJ: Imagina-se um dia a exercer algum cargo na estrutura do Sport Lisboa e Benfica?

AV: O Benfica sabe que estou sempre disponível para o que precisar de mim. As minhas funções no Benfica e na Benfica TV não são trabalho, mas uma missão que executo com gosto.

GJ: Mas algum cargo concreto, por exemplo…

AV: O Benfica sabe que estou sempre disponível para o que precisar de mim!

GJ: Como começou a fazer comentário desportivo na televisão? Costumava acompanhar as notícias desportivas?

AV: Sim, sempre acompanhei de perto o mundo desportivo. Sobretudo o futebol…sou um apaixonado por tática e psicologia colectiva. Mas, em concreto, a minha chegada à Benfica TV começou por um interessante acaso: a participação do meu bom amigo António Pragal Colaço em algumas das minhas iniciativas académicas! Começámos depois a fazer um programa semanal sobre fiscalidade (o “Contas Feitas, Dúvidas Desfeitas”) e, com o tempo, fui participando noutros programas como o “Lanças Apontadas” ou o Jornal das 10h, que é onde faço o comentário semanal agora.

GJ: É fácil para um académico lidar com o mundo particular do desporto?

AV: Não é fácil, reconheço. O comentário desportivo exige uma linha de construção e argumentação diferente do comentário politico ou jurídico a que estava mais habituado. Mas tive a ajuda preciosa de vários amigos na mesma situação (como o Fernando Seara ou o Rui Gomes da Silva) e sobretudo o apoio sempre presente e incondicional do Ricardo Palacin e do Pedro Guerra, que foram pacientemente tolerando algumas das minhas limitações…

GJ: É um homem de muitos amigos, isso é notório?

AV: Sim, mas não veja isso com segundas intenções. Prezo muito as minhas amizades, que vão muito para além de pertenças clubísticas, partidárias ou religiosas. Tenho bons amigos em todos os clubes e em todos os partidos e posso dizer-lhe, honestamente, que não seria o que sou hoje sem o apoio de tantos deles. Deixe-me dar-lhe um exemplo: o Prof Jorge Bacelar Gouveia é Presidente do Conselho Fiscal do Sporting e é um dos meus melhores amigos. Leccionamos juntos na Universidade Nova e na Universidade Autónoma de Lisboa e temos colaborado em diversas instituições de ensino no mundo todo, sobretudo em África. Temos viajado imenso e divertimo-nos sempre. Como vê…clubes à parte, somos amigos acima de tudo. E o mesmo quanto a partidos políticos…homens como António Carlos dos Santos (que foi secretário de Estado do PS e esteve no Novo Rumo com o António Seguro) ou o Pedro Silva Pereira (ministro adjunto do Engº José Sócrates) fazem parte do meu círculo de relações pessoais e estamos em polos politicamente distintos. Este último até apresentou um dos meus livros…

GJ: Mais uma vez, não teme que possa ser visto como um “boy”? Alguém sempre levado ‘ao colo’ através dessas relações pessoais?

AV: Para lhe ser sincero, nunca sequer me passou pela cabeça. Aliás, sempre procurei ter o maior mérito possível em tudo o que faço. Na licenciatura, no doutoramento, no trabalho, na televisão, na escrita, sempre procurei dar o meu melhor – por vezes até ao limite – para atingir a perfeição. Não acredito nos amigos que nos desenham o mérito. Somos nós que o criamos. E eu trabalho muito para fazer bem aquilo com que me comprometo. Desde estudar a…

GJ: É verdade que concluiu os estudos de Direito com média de 19 valores?

AV: É verdade, se quiser mostro-lhe o certificado (risos)! Mas isso é apenas um número…muito dependente das circusntâncias e do contexto. Quando temos uma turma de 100 alunos diante de nós num auditório, quando temos milhares de telespectadores em frente à TV ou quando temos uma folha em branco para começar a escrever um livro…os amigos e o 19 não valem muito. Somos nós, o nosso trabalho e o nosso mérito. Eu sei que ainda tenho muito a aprender…a chave do sucesso é querer sempre fazer melhor. E eu quero!

GJ: Também na literatura?

AV: Acima de tudo na literatura. Escrever é uma paixão. Acho que lhe posso dizer isto assim: a primeira descoberta que fiz de mim próprio, do ponto de vista profissional, foi a paixão pela escrita. O prazer de transformar uma folha em branco em palavras, de transformar a realidade num conjunto de formalismos a que chamamos texto. Fascina-me. Adoro escrever. Quero ser um escritor cada vez melhor. Quero ser escritor até morrer. Quero morrer a escrever…

GJ: Mesmo livros como “A última madrugada do Islão”?

AV: Todo o tipo de livros. Não gosto de estabelecer limites. Olhe, por exemplo, admito um dia escrever um livro sobre moda patrocinado pelo Gentleman’s Journal e pela Fashion TV (risos)

GJ: Olhando para trás, diria que foi uma imprudência essa publicação, em 2009?

AV: Honestamente, não. Se me pergunta se o escreveria hoje, é uma questão diferente. Mas não creio que possamos falar de imprudência…eu sabia e conhecia os riscos do projecto. Mas sempre acreditei – e continuo a acreditar – que não podemos ter medo de dizer o que pensamos. Escrever é uma liberdade fundamental. Muita gente antes de mim morreu para que eu tivesse este direito. Não podem ser minorias religiosas ou culturais a dizer-nos o que podemos ou não escrever, o que devemos ou não dizer. Isso contraria o núcleo essencial do direito à liberdade de pensamento e até de informação.

GJ: Mas não teve medo?

AV: Sim, tive e tenho. Sobretudo pelo minha família. Mas sempre que penso nisso, recordo-me de todos aqueles que, antes de mim, lutaram contra ditaduras, grupos terroristas, governos implacáveis…eles sim, correram riscos graves para eles e para as suas famílias. E não desistiram por isso. Porquê? Porque acreditavam que o que estavam a fazer era o que estava certo. Era o mundo em que queriam que eles e os filhos vivessem. É por isso que nunca vou desistir de denunciar o fundamentalismo islâmico…porque não quero que os meus filhos cresçam num mundo sem liberdade de pensamento ou em que as mulheres são consideradas objectos de troca comercial. O Dr. Rui Pereira – que foi Ministro da Administração Interna e esteve ainda a semana passada comigo na CM TV – costumava utilizar uma expressão na Universidade de que nunca me esqueci: não podemos ceder à ignomínia! Nunca! É esse também o meu pensamento…

GJ: Como é que, aos trinta e poucos anos, já tem escritos três manuais de Direito, mais um conjunto de livros na área da fiscalidade e romances?

AV: Conforme lhe disse há pouco, trabalho. O segredo é trabalhar muito, com sacrifício e método.

GJ: Está a escrever alguma coisa, neste preciso momento?

AV: Vários livros (risos). Nunca se pode parar. Em breve vou lançar um livro com o Rui Gomes da Silva (e com a Vida Económica) sobre – imagine – o Benfica. Uma relfexão sobre os grandes temas que marcam a actualidade politica e desportiva em Portugal. Mas estou também a trabalhar num importante projecto sobre jornalismo e criminalidade com o jornalista Miguel Fernandes, do Correio da Manhã – que acredito que virá a ser um dos grandes jornalistas do nosso tempo nestas matérias – e estou a trabalhar num novo Manual de Direito Processual Penal para os meus alunos. Ah, e lançarei, ainda este ano, na Cidade da Praia, o “Manual de Direito Fiscal de Cabo Verde”…

GJ: Tenho que lhe perguntar isto, visto que já não temos muito mais tempo, qual a grande ambição que tem na vida? Alguém que trabalha tanto…para onde vai? Onde quer chegar?

AV: Não quero chegar a ponto nenhum em especial. A minha mãe, que não é mulher de grandes estudos, costuma dizer-me: “não faças grandes planos para a vida, que ela já tem grandes planos para ti”. E isso é uma grande sabedoria…eu espero por esses planos.

GJ: Mas se tivesse que enunciar um objectivo…um desejo, um lugar que se imaginaria e em que pudesse servir os outros?

AV: Bom, postas as coisas assim, gostaria um dia de servir a comunidade onde nasci e cresci…e tantas deficiências e carências encontrei e tenho encontrado. Talvez um dia me candidate a Presidente da Câmara Municipal de Sintra, para continuar a obra do meu amigo Fernando Seara. Politicamente, era algo que me atrairia.

GJ: E esperaria o apoio do PSD?

AV: Nunca me imaginaria a candidatar por outro partido que não o PSD

GJ: Candidatou-se, recentemente, a Subdiretor-Geral do Fisco e está na lista final da CRESAP. O mérito está reconhecido. Espera agora a aprovação política?

AV: É um processo em curso. Não me vou pronunciar sobre ele. É uma decisão que cabe agora à Sra. Ministra das Finanças e que respeitarei, seja qual for o sentido da mesma.

GJ: Professor, escritor, inspector, comentador desportivo, analista politico…tantas profissões! Em qual delas se revê mais?

AV: Sou acima de tudo um Professor. Está-me no sangue. Adoro ensinar e adoro os meus alunos. Não imaginaria a minha vida sem os livros e sem a universidade…

GJ: Vamos às últimas perguntas rápidas. Alguém com quem gostasse de jantar esta semana?

AV: Bruno Carvalho, para lhe explicar algumas coisas (risos)

GJ: Uma mulher com quem gostasse de estar antes de casar?

AV: Epa…vocês querem arruinar-me a reputação (risos). Mas gosto muito da Diana Chaves, talvez tivéssemos muito que conversar antes de me casar (risos)

GJ: Os seus jornais preferidos:

AV: Correio da Manhã e Jornal OJE.

GJ: Canais de televisão?

AV: CM TV e Benfica TV.

GJ: Considera-se sexy e na moda?

AV: De todo. Não percebo muito de moda nem daquilo a que uma certa sociologia pós-moderna chama de bom gosto ou glamour. Acho que não tenho um nem outro, mas o futuro a Deus pertence e isso dá-me esperança. Einstein dizia “tudo parece impossível até que aconteça”. E, portanto, eu acho que ainda é bem possível que venha a ser um professor e um escritor sexy e na moda (risos).